Por: Luysa Curty 24/04/2019

“As coisas dão errado. Fato. As coisas vão desandar, não vão sair como planejamos. Imprevistos acontecem. E tá tudo bem. Respira.” Era isso que eu repetia pra mim toda noite. Um mantra imaginário, num cenário florido e ensolarado, na beira do mar, com as mãos enterradas na areia e o cabelo voando, formando curvas guiadas pela brisa. Dar errado era ruim, mas a liberdade vinha após isso. Planejando tudo milimetricamente, contando os dias, me encaixando dentro dos anos que vinham pela frente. Chutava o balde. Voltava. Encucava. Libertava. Pensando em poesias, não me vinha nenhuma. O que sou? Poeta que não encontra palavras certas. Me questiono mais do que escrevo. Será que isso faz sentido? Sinceramente, não sei. Pra mim faz, e pra você? Quem é você? Artista, matemático, historiador, filósofo? Tudo isso? Nada disso? Brevidade. Nove letras na vertical. Na horizontal também cabe. Eu que não encaixo. Não sou breve. Sou verbosidade e aprofundamento. As palavras me enchem e me faltam, assim como as ondas. Você olha e vê ela crescendo de longe, pensa em sair correndo da água. Como vai ser quando ela chegar? Vai quebrar em cima de mim e me levar em cambalhotas para a areia ou será suave e calma? Fujo ou fico? Ansiedade. Adrenalina. Está perto. Vai quebrar. Não. Acho que dá. Mergulho ou subo? Veio. Foi. Acalmei. Comecei a escrever sem nenhuma ideia aparente, na verdade, continuo sem. Vem a palavra, vem a pontuação, vem a frase. Se é coeso pouco me importa. Todo texto que escrevo é uma produção de mim… Construo-me e escrevo-te. Nasci com essa alma flutuante e oscilante, meio errante. Não estou procurando rimar, mas a gente rima. E rema. E a onda vem de novo. E quebra. E a gente cambaleia até a areia. A vida é isso: Levar um caixote no mar e ficar com a calcinha cheia de areia. Inconveniente, mas a gente volta pro mar para se limpar e se recompor. Provavelmente outra onda vai vir e fazer dreads de areia e alga no nosso cabelo. Vai ser uma merda pra desembolar, mas o jeito mais fácil de ajeitar é se voltar pra água. Outra onda. Não esperava. A água salgada que entrou pelo nariz agora queima a garganta. Não é possível. A gente continua indo pra água. Não importa, lançar-se é preciso. Uma hora o cabelo desenrola, a areia sai de dentro do biquíni e a garganta para de arder, mas mergulhar não tem preço. Continuem mergulhando. Se acalmem! Tudo vai dar errado!

Por: Luysa Curty
Contato: luysacurty@gmail.com

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